Banco do Brasil

8 de Outubro de 2026 às 16:22

Desemprego, menos direitos e desmonte da Cassi e Previ: os reais impactos em caso da privatização do BB

Com o Banco do Brasil na mira do projeto de privatizações de Flávio Bolsonaro, milhares de trabalhadores, da ativa e aposentados, estarão com empregos e direitos ameaçados; presença do banco público em quase todos os municípios e seu papel social como financiador da comida que chega na mesa dos brasileiros também correm riscos

No dia 14 de setembro, durante uma reunião com empresários do grupo Esfera Brasil, em São Paulo, Daniella Marques, coordenadora do plano econômico do candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, admitiu que “mais de 20 estatais” devem ser privatizadas, em caso de eleição do senador e que o “Banco do Brasil poderia (ser uma delas)”.

“O que causa indignação é o forte interesse de privatizar uma empresa com um papel social tão importante para a agricultura, inclusive para o agro, o Desenrola, Move Brasil, Consignado do Trabalhador, todos esses programas fundamentais para o desenvolvimento do país”, aponta Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT, ao criticar a fala de Daniella Marques. “O BB foi, por décadas, o único financiador da agricultura. E, hoje, é o maior financiador deste setor. Sem o BB, o Brasil não seria, atualmente, um dos maiores produtores de alimentos do mundo”, completa a dirigente.

Flávio Bolsonaro já declarou que, se eleito, irá “privatizar 95% das estatais”. Essa fala ocorreu ainda em fevereiro, durante sua participação na CEO Conference 2026, evento organizado pelo BTG Pactual, banco que foi beneficiado pelo então governo Jair Bolsonaro, no processo de desmonte do Banco do Brasil, com o fechamento de agências, desligamento de funcionários e venda de ativos, entre 2019 e 2022.

Em junho de 2020, um fundo ligado ao BTG comprou pelo valor de R$ 371 milhões uma carteira de crédito do BB avaliada em R$ 2,9 bilhões. A estranha diferença de 90% entre o que a carteira valia e o preço pelo qual foi vendida, chamou a atenção da Controladoria-Geral da União (CGU), que apontou a falta de planejamento e de justificativas mercadológicas para a operação.

Em abril do mesmo ano, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, disse, durante reunião ministerial que teve a gravação divulgada posteriormente pela Polícia Federal: “O Banco do Brasil é um caso pronto de privatização (...) Então, tem que vender essa porra logo”.

Durante o governo Jair Bolsonaro, a participação do Banco do Brasil no crédito total do país sofreu queda de 18,5% para 15,9%. A empresa também perdeu 5,6 pontos percentuais de participação de mercado no crédito rural, saindo de 57,7% para 52,1%. Este também foi um período em que o BB fechou 739 agências, ou 185 por ano, e 10.936 postos de trabalho, ou 2.734 por ano. Com o retorno de Lula ao Palácio do Planalto, em 2023, o BB retomou o protagonismo no fomento de crédito, em especial para o agronegócio e à agricultura familiar.

“Acabar com o BB é destruir um grande agente de desenvolvimento, que leva crédito para todo o país. Sem crédito, a economia não se sustenta, elimina empregos e diminui a renda das famílias”, aponta Juvandia. “Em junho de 2026, a carteira de crédito expandida do BB alcançou o patamar de R$ 1,3 trilhão, número que consolida sua estabilidade no mercado financeiro e que comprova que não há justificativa alguma para vender um banco público tão importante para o Brasil”, observa a dirigente, completando que partes significativas desse valor – R$ 1,3 trilhão – são créditos para o agronegócio (R$ 421,6 bilhões) e créditos à carteira de negócios sustentáveis (R$ 431,5 bilhões).

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Empregos ameaçados, menos direitos e fim da Cassi e Previ

Juvandia Moreira destaca que o enxugamento dos postos de trabalho é um movimento que acontece em todas as empresas que são privatizadas.

“Antes de votar, o funcionário do BB precisa pensar no seu futuro e no de sua família”, considera. “Os investidores que compram a empresa querem mudar a cultura e reduzir despesas e, para eles, a maneira mais eficiente de fazer isso é cortar cabeças, contratando funcionários com salários mais baixos. Quando a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) foi privatizada, por exemplo, 40% dos funcionários foram demitidos logo após a transferência da empresa para o capital privado. Com a privatização do BB não seria diferente: teríamos o fechamento de milhares de agências, diminuição de funcionários e salários reduzidos. Os benefícios, como Cassi e Previ, também sofreriam cortes, porque plano de saúde e previdência complementar são considerados caros para os modelos de negócio privados”, completa Juvandia.

Outro caso emblemático, apontado pela dirigente, foi o da Eletrobrás. Assim como o Banco do Brasil, a maior empresa de energia elétrica da América Latina apresentava resultados financeiros positivos e registrava lucros bilionários nos anos anteriores à sua privatização, concluída em junho de 2022.

A promessa feita pelo então governo Jair Bolsonaro era de que a venda da Eletrobrás traria uma redução inicial de 7,36% nas tarifas de energia residencial. A realidade, porém, foi outra: o forte encarecimento nas contas, tanto para os consumidores residenciais quanto para os setores produtivos.

Além de os consumidores pagarem mais caro pela energia, com a privatização ocorreu uma grande demissão, sob a justificativa de corte nos custos operacionais. Esse enxugamento do quadro técnico resultou na queda da qualidade de serviços prestados e, com isso, no aumento dos casos de apagões em vários estados.

A coordenadora da Comissão de Empresa dos Funcionários do BB, Fernanda Lopes, também reforça os sérios riscos da privatização, tanto para o funcionalismo quanto para a população brasileira. “Hoje o Banco do Brasil tem mais de 84 mil trabalhadoras e trabalhadores no seu quadro de trabalho, 51 mil postos de atendimento, com presença em mais de 93% dos municípios brasileiros, dando acesso a atendimento e recursos à população, onde os bancos privados e o mercado não querem atuar”, explica.

“A Eletrobrás foi privatizada no âmbito do Programa Nacional de Desestatização (PND), uma das principais bandeiras da gestão Jair Bolsonaro e que, claramente, será retomada em caso de eleição do filho. A questão colocada, portanto, agora é: estariam os funcionários do BB, da ativa e aposentados, dispostos a pagar pra ver?”, conclui Fernanda Lopes.

Fonte: Contraf-CUT - *Por Lilian Milena, repórter da Contraf-CUT



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